Dor na coluna em cirurgiões dentistas








    A coluna vertebral é constituída de 33 vértebras formando o eixo ósseo do corpo e está condicionada a oferecer resistência de um pilar de sustentação, mas também a flexibilidade necessária à movimentação do tronco (RIO, LOZANO, GARRO, 2004; DANGELO, FATTINI, 2007; SERRANO, 2009).

    Uma das maiores causas de afastamento prolongado do trabalho e de sofrimento humano são os transtornos da coluna vertebral. As cervicalgias e lombalgias apresentam uma incidência impressionantemente alta no trabalhador, muitas vezes precipitada pelas condições de trabalho que decorrem da utilização biomecânica incorreta da "máquina humana". Aproximadamente 60% das dores na coluna vertebral são causadas por dores musculares, em geral por retrações dos músculos devido à má postura, esforço físico, movimentos repetitivos de maneira errada e predisposição genética (MAEHLER, 2003).

    Os profissionais odontólogos estão entre os primeiros em afastamento do trabalho por incapacidade temporária ou permanente, com sintomas de dor e desconforto em diferentes regiões do segmento superior do corpo, sendo mais acometida a região do pescoço, ombro e coluna lombar A maioria dos quadros descritos pode ser enquadrada entre os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (SANTOS FILHO, BARRETO, 2001).

    Atualmente, as questões de saúde e organização relacionadas ao trabalho têm sido muito investigadas devido aos problemas verificados entre as diversas categorias de trabalhadores. Dentre as mais variadas atividades laborais, a odontologia se destaca por ser uma atividade voltada para a saúde, mas que exige muita precisão e concentração, o que impõe ao seu praticante uma série de fatores predisponentes a alterações sócio-psico-fisiológicas e organizacionais de seu trabalho (LOGES, AMARAL, 2005).

    A odontologia tem sido considerada uma profissão "estressante", colocando os profissionais odontólogos entre os primeiros lugares em afastamentos do trabalho por incapacidade temporária ou permanente, respondendo por cerca de 30% das causas de abandono prematuro da profissão (SANTOS FILHO, BARRETO, 2001).

    Tais profissionais experimentam comumente dor musculoesquelética durante o curso de suas carreiras. Enquanto a dor lombar ocasional ou dor de pescoço não é uma causa para alarme, se ocorrer dor regularmente ou desconforto e este é ignorado, o dano fisiológico cumulativo pode conduzir a um dano ou uma inaptidão profissional (VALACHI, VALACHI, 2003).

    Estudos sistemáticos sobre os distúrbios musculoesqueléticos em cirurgiões-dentistas vêm sendo realizados desde a década de 50, e são responsáveis pelas primeiras propostas de modificações no processo de trabalho dos dentistas, inclusive a mudança do trabalho da posição ortostática para a posição sentada (SANTOS FILHO, BARRETO, 2001).

    No trabalho sentado a maior parte dos músculos posturais estão relaxados. Do ponto de vista da atividade muscular, pode-se considerar a posição sentada como de baixo risco para algias da coluna, entretanto, as estruturas articulares, tornam-se expostas a maiores riscos de lesão. As cargas na coluna são sempre maiores na posição sentada do que na postura em pé, devido aos elementos posteriores da coluna vertebral que formam uma carga ativa quando em pé. No entanto, na posição sentada não há participação destes elementos de força anti-gravitacional, permitindo assim que os discos intervertebrais recebam uma carga maior, elevando o risco de lesões (BRITO, 2003).

    Na postura sentada, a parte inferior da coluna, a lordose lombar, é reduzida, sofrendo uma diminuição ou eliminação de sua curvatura fisiológica, tornando-se reta ou mesmo invertendo-se. Assim, diminui-se o espaço existente na parte da frente das vértebras e aumenta-se o de trás, forçando o núcleo pulposo, que estava no centro do disco, para trás (MAEHLER, 2003).

    Vários procedimentos odontológicos exigem para o dentista assumir e manter posições que podem ter desvantagens potenciais para seu sistema musculoesquelético. O trabalho com pacientes é executado freqüentemente com os braços elevados e sem apoio e com a coluna cervical flexionada e rodada. Estudos prévios informaram uma prevalência alta de sintomas no pescoço e na região do ombro como também da região lombar de dentistas que trabalham em prática clínica (MOEN, BJORVATN, 1996).

    A dor cervical localizada, conhecida como cervicalgia, é um problema de saúde extremamente comum na população geral (HOVING, 2002; CÔTÉ, 2004; CHIU, LAM, HEDLEY, 2005; ESTEBAN, 2006).

    Como doenças da coluna cervical estão ficando prevalecente na sociedade, estimativas indicam que 67% de indivíduos sofrerão dor cervical em alguma fase da vida (FALLA, JULL, HODGES, 2004).

    Nos Estados Unidos 50% a 70% da população irão sofrer cervicalgia pelo menos uma vez na vida, tanto quanto um terço é afetado a cada ano (HURWITZ, 2002).

    A dor na coluna cervical apresenta menor freqüência e incapacidade de trabalho que a dor lombar e com um número menor de consultas (SEPÚLVEDA, 2004).

    A faixa etária de maior incidência situa-se entre 45 e 65 anos, sendo mais freqüente no sexo feminino (FONSECA, DUARTE, ROSÁRIO, 2001; HOVING, 2002).

    A cervicalgia pode apresentar um quadro clínico de começo brusco ou de instauração lenta e evolutiva que se inicia no pescoço e logo se irradia para o ombro e extremidade superior, que se exacerba com os movimentos e se incrementa com o decúbito e o repouso noturno, acompanhando-se de parestesia (SEPÚLVEDA, 2004).

    Dentre as diversas Síndromes Dolorosas destacam-se as algias vertebrais, que acometem milhões de pessoas, sendo um dos principais incômodos da população, em que as lombalgias são observadas em 70% dos brasileiros, podendo relacionar-se com a má postura ou hérnias discais (TOSATO, 2006).

    Na consulta ortopédica as dores da coluna estão entre as queixas mais freqüentes dos pacientes, bem como representam causas comuns de afastamento do trabalho (FERNANDES, 2007).

    Dentre as doenças crônicas, estudos afirmam que 70 a 85% de todas as pessoas sofrerão de dor lombar em algum momento de suas vidas (CUNILL, 1993; GÓMEZ, 2001; LLERENA, NOVO, MARTÍNEZ, 2001; BIYANI, ANDERSSSON, 2004; SILVA, FASSA, VALLE, 2004; GONZÁLEZ-HIDALGO, 2006; ROBAINA, 2006).

    A lombalgia é a causa primária de inaptidão em indivíduos com idade inferior a 50 anos (GÓMEZ, 2001; LLERENA, NOVO, MARTÍNEZ, 2001; BIYANI, ANDERSSSON, 2004).

    Segundo a Associação Internacional para Estudo de Dor a lombalgia é uma intolerância para a atividade e inabilidade para trabalhar (GÓMEZ, 2001).

    Esta morbidade atinge principalmente a população com idade economicamente ativa (SILVA, FASSA, VALLE, 2004).

    A lombalgia pode apresentar fatores de risco que é fundamental identificar. Os fatores mecânicos como posturas estáticas adotadas no trabalho, vibração, tarefas repetitivas e condução prolongada são considerados como fatores de risco. Há também fatores pessoais a serem considerados, como a idade, o sexo, obesidade, IMC elevado e hábitos tabágicos (PONTE, 2005; OLIVEIRA, ZABKA, FLORES, 2008).

    O trabalho físico pesado, levantamentos, posturas estáticas, flexões e torções, vibração, ambientes desagradáveis e tarefas repetitivas, são fatores que estão também associados com aumento do risco de dor lombar (GÓMEZ, 2001).

    A lombalgia tem como causas algumas condições como: congênitas, degenerativas, inflamatórias, infecciosas, tumorais e mecânico-posturais (ANDRADE, 2005; SERRANO, 2010).

    Na lombalgia a dor não apresenta irradiação importante, a intensidade da dor é variável, desde uma sensação de desconforto até uma dor lacinante, quase sempre há transtorno funcional, impedindo o paciente de recostar, trabalhar ou deitar. Em alguns casos há bloqueio funcional, ficando o paciente em uma posição rígida, sem condições de exercer qualquer atividade. É comum a presença de rigidez matinal que melhora com a movimentação. Mudanças de posição, o ato de sentar, deambulação, tosse, espirros e pequenos esforços provocam dor. Observa-se limitação da mobilidade da coluna, dor a palpação da região lombar, podendo haver uma área extremamente sensível (PORTO, 2000).

    O objetivo do presente estudo foi avaliar a prevalência de algias na coluna vertebral em cirurgiões dentistas, decorrentes da prática da atividade clínica profissional, bem como verificar qual a prevalência de algia, definir qual o segmento mais acometido e estabelecer critérios relacionados à postura e presença da dor.

Materiais e métodos

    Foram sujeitos da pesquisa 47 cirurgiões-dentistas, portadores ou não de algias vertebrais, independente da doença, sexo ou idade. Todos pacientes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido.

    Foram analisadas como exposições as variáveis demográficas (sexo, idade, cor da pele e situação conjugal), comportamentais (tabagismo, carga horária de trabalho, procura de auxílio médico e resultado com terapias), ergonômicas (trabalho sentado, trabalho em pé, trabalho com esforço físico, trabalho com vibração, trabalho de repetitividade, trabalho em posição viciosa, trabalho em posição estática de rotação de tronco, trabalho em posição estática de flexão anterior de tronco, trabalho em posição estática de rotação de cervical, trabalho em posição estática de flexão cervical, trabalho em posição estática de extensão cervical e se conhece sobre ergonomia), álgicas (dor na coluna cervical, dor na coluna torácica e dor na coluna lombar) e nutricional (peso, estatura e índice de massa corporal – IMC).

    As variáveis ergonômicas foram caracterizadas pela percepção do entrevistado identificando entre as opções (nunca, raramente, geralmente, sempre) qual delas caracterizava melhor a freqüência de exposição. Entre as variáveis aferidas estão esforço físico, vibração e repetitividade, bem como posição viciosa e variáveis álgicas (dor na coluna cervical, na coluna torácica e na lombar).

    A variável tabagismo foi coletada nas categorias de nunca fumou, ex-fumante ou fumante atual. O IMC dos indivíduos foi medido pelo peso (Kg) referido, dividido pela altura (cm) referida elevada ao quadrado.

    Os resultados foram obtidos através de análise estatística simples utilizando porcentagem, e descritos de forma dissertativa.

Resultados

    Foram estudados 47 indivíduos, com idade entre 23 e 71 anos, sendo que 51% eram do sexo masculino e 94% era da cor branca. A situação conjugal aponta que 70% era casado ou vivia com companheiro.

    Na análise bruta 43% encontrava-se em idade economicamente ativa, entre 30 e 39 anos, e que 81% trabalham oito horas diárias ou mais. Entre todos os participantes 28% procuraram por auxilio médico, e 53% apresentaram resultados com terapias, bem como 96% dos participantes nunca fumaram

    Para definir as prevalências das variáveis ergonômicas, as freqüências obtidas nas categorias "geralmente" e "sempre" foram reunidas em um único grupo. Em relação à posição observou-se que 100% trabalhavam sentado e que 94% dos indivíduos consideravam que trabalhavam em posição viciosa. Foi apontado que 94% trabalhavam com movimentos repetitivos; 25% realizava trabalho com esforço e 23% estavam expostos a vibração, geralmente ou sempre.

    Sobre a postura de trabalho 75% trabalhava com rotação de tronco e 85% com inclinação do tronco. Na coluna cervical 83% trabalhava com rotação cervical; 75% com flexão cervical e 53% com extensão cervical.

    Sobre ergonomia 96% dos participantes afirmavam que conhecia, geralmente ou sempre.

    No tocante algias vertebrais o presente estudo apresenta prevalência de 60% para lombalgia seguida de 42% de cervicalgia. Em relação às algias vertebrais relacionadas com a postura de trabalho constatou-se que prevalece na posição sentada, sendo prevalente a lombalgia com 55,3%, seguida de cervicalgia com 40,4%.

    Em relação ao peso dos participantes, 26% apresentaram entre 50-59 kg e 26% com 80 kg ou mais. A estatura prevaleceu 32% entre 1,60-1,69m, e 4% apresentava IMC correspondente a obesidade (igual ou superior a 30 kg/m2).

Discussão

    De acordo com os dados coletados, a idade apresentou-se maior na faixa etária considerada produtiva, até 50 anos (85%), com a prevalência de 51% do sexo masculino, diferindo de outros estudos como Santos Filho, Barreto (2001) e Maehler (2003) que aponta prevalência de 58% e 66% dos entrevistados para o sexo feminino.

    A situação conjugal nos apresentou que 70% eram casados ou viviam com companheiros, se aproximando dos resultados encontrado por Santos Filho, Barreto (2001), Loges, Amaral (2005) e Ponte (2005), em que os entrevistados casados apresentava entre 54% a 72% de prevalência.

    Observou-se que 96% dos participantes nunca fumaram, se aproximando dos dados obtidos por Santos Filho, Barreto (2001) e Loges, Amaral (2005), apresentando que 84% e 90% dos entrevistados não eram tabagistas. A interferência do tabagismo não alterou os quadros de algias, não relacionando-se com os trabalhos de Ponte (2005) e Oliveira, Zabka, Flores (2008) em que apresenta hábitos tabágicos como fator de risco para a lombalgia.

    Em relação à carga horária de trabalho 81% trabalham oito horas diárias ou mais. sendo prevalente também no estudo realizado por Maehler (2003), apontando que 71% dos entrevistados trabalham oito horas diárias ou mais. Como afirma Graça, Araújo, Silva (2006) não é aconselhável que o cirurgião dentista permaneça na mesma posição por um longo período, sugerindo-se a mudança de postura a cada duas horas, aliviando a circulação e evitando a fadiga muscular.

    Entre todos os participantes 28% procuraram por auxilio médico, e 53% apresentaram resultados com terapias, diferindo dos dados obtido por Maehler (2003), em que 55% procuraram auxilio médico, podendo ser justificado em nosso estudo que 53% dos participantes obtiveram resultados de alivio com terapias, não procurando por auxílio médico.

    É necessário que os profissionais de odontologia se conscientizem quanto ao cuidado de seu maior patrimônio: seu próprio corpo. Pausas para descanso entre os atendimentos, adoção de métodos preventivos, como, exercícios regulares, massagens, cuidados com a postura, são algumas alternativas que podem ser adotadas a fim de prevenir e/ou minimizar os possíveis problemas musculoesqueléticos, advindos da profissão, considerada uma das mais estressantes na área da saúde.

    Quanto à postura todos os indivíduos afirmaram que geralmente ou sempre se utilizam da postura sentada, 94% com movimentos repetitivos e 26% trabalham com esforço físico, apresentando diferença significativa com outro estudo apresentado4 em que 80% dos entrevistados afirmaram trabalho com esforço físico.

    Pelo estudo realizado, fatores como o maior acometimento de lombalgias, podem ser indicativos de uma necessidade de melhor adaptação dos equipamentos às necessidades antropométricas, bem como a qualidade e especificidade de cada equipamento, de acordo com o tipo de atividade desenvolvida e as necessidades de cada gênero.

    Entre todos os indivíduos participantes do presente estudo, 94% consideravam que trabalhavam com uma posição viciosa, sendo que a maioria adotava a posição de inclinação anterior de tronco e rotação de tronco associado com rotação cervical e flexão cervical, variando com 53% que afirmaram que geralmente ou sempre adotam a posição de extensão cervical, acompanhando a tendência encontrada no estudo de Maehler (2003) que aponta a mesma posição como sendo a prevalência.

    No tocante algias vertebrais o presente estudo apresenta prevalência de 60% para lombalgia seguida de 42% de cervicalgia, se aproximando dos valores encontrados nos estudos apresentados por Moen, Bjorvatn (1996), Santos Filho, Barreto (2001) e Loges, Amaral (2005) e diferindo dos dados apresentados por Maheler (2003), em que relata a prevalência de 24% de cervicalgia e 17% de lombalgia, tendo como alvo os acadêmicos de odontologia, enquanto os demais autores utilizaram-se de profissionais atuantes.

    Diante da complexidade de se avaliar as algias, faz-se necessário uma maior quantidade de estudos para que se possa verificar resultados mais fidedignos, bem como as características dos quadros álgicos, a influência de outros fatores que não físicos na intensidade e prevalência da dor, e o melhor posicionamento que se adapte as necessidades do profissional.

    A obesidade pode causar alterações no equilíbrio biomecânico do corpo propiciando assim o risco de dor lombar (Oliveira, Zabka, Flores, 2008), o que não apresenta relação com o presente estudo, em que 4% apresentava-se com o IMC elevado, correspondente a obesidade

Conclusão

    O presente estudo apresenta prevalência de 60% para lombalgia seguida de 42% de cervicalgia, sendo o segmento vertebral mais acometido representado pela coluna lombar, seguido com a coluna cervical.

    A atividade do cirurgião dentista possui uma variedade de aspectos e funções, não podendo se abranger somente neste estudo. Este se deteve a investigar a profissão como um todo. Porém, sabe-se que a odontologia é feita de várias especialidades distintas entre si, e com atividades laborais e físicas muito específicas. Essas, futuramente devem ser investigadas de forma separada, para que se possa ter uma intervenção ergonômica focalizada nas necessidades de cada especialidade. Sendo assim, trabalhos mais aprofundados em relação à postura de trabalho associada às especialidades, na organização de trabalho e sobre os equipamentos utilizados nas atividades dos odontólogos, baseados nos achados do presente estudo, podem levar a uma melhoria na qualidade da atividade laboral e de vida deste segmento profissional.

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